TERRA-TEATRO
(no meu livro Sirgas e Organsins - 1986)
O pensamento é como um raio
constantemente a cruzar-se
e as criaturas da terra
pensam.
Mas escrever é diferente...
Exige disponibilidade total:
desejo, tempo, papel, ambiente,
entrega.
Para escrever é preciso estar livre
liberta, licenciada, liberada,
necessitada afinal.
E PARA SER FELIZ?
Para ser feliz me desnudei,
fiquei nua de pensamentos
esperando um homem
que não vem.
Aí disseram-me muito sobre
possibilidades, probabilidades, e
desacreditei da fatalidade, do encontro
que não vem.
É preciso buscar e sair de lanterna,
atrás da camisa do homem
que afinal estará despido
e não vem.
Quero ser feliz amando um homem
realizado, sorridente, alegre,
a mim destinado que não vem.
P O R Q U E ?
Porque viver é assim
essa eterna busca
na terra-TEATRO da vida
que empurra as criaturas
para a frente.
Mas, Deus, oh! Deus,
vivi metade do meu tempo
e o cansaço começa
a tremer minhas mãos
sozinhas.
Neste mundo enorme
sinto-me fraca
perdida entre mil partes
buscando a outra metade
mas já sem fé.
E o pensamento exagerado
continua em cena
traçando sonhos, quimeras,
o amor fora de série
de um príncipe encantado?
TEATRO DA FELICIDADE
Escrever e ser feliz
fatos desabotoados, desejos
subjetivos
no TEATRO da vida
sendo reprimidos.
Nada se faz sozinha
sorte lançada nos dados
é dividida
pela concorrência injusta
da disponibilidade.
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