O Grito do Homem

Lizete Abrahão

 

O que move o Homem e persiste no tempo,
É o que faz parte dele e o completa;
É sua voz que ecoa pelos ares e templos,
Sobre as montanhas e na rua reta.

Tudo nele grita: na ânsia da largada;
No arrepio das audácias e do orgasmo;
Nas veias de lava incendiada;
Nos músculos retesados de entusiasmo. 

Aos gritos, abriu clareiras, ampliou espaços,
Humilde, rasgou-se nos espinhos,
Caiu suado no lodo, ergueu-se em terraços,
Ventou nos ramos, destruiu ninhos.

Acreditou em seres maiores e se fez mito,
Derrubou deuses, construiu mausoléus.
Nos fantásticos ecos do seu próprio grito, 
De longe, trouxe infernos e céus. 

Entre árvores e o azul, chamou a manhã,
Narinas dilatadas, aspirou calor,
Peito de aço, tombou tal madura maçã, 
Dormiu no seu corpo num estertor.

O Homem vestiu sonhos, rezou e gemeu...
Sangrentas trilhas abriu em prantos;
Depois do mar, veio-lhe o apogeu:
O universo encolheu-se sob os seus mantos

Bem alto foram seus urros de ufania,
Acres os gemidos do que aprendeu,
Secou as lágrimas, de raiva e euforia,
Sem saber o segredo que mais lhe doeu.

Segue ele, ainda, as noites milenares,
Mais que ontem, é amado ou odiado,
Não olha para seus calcanhares,
Tropeçaria na sombra do seu passado

Hoje, entontecido, de asas abertas,
Abarca a vida em abordagem de pirata
Nos longes mais longes, buscas certas,
Em si não se encontra...mas fere e mata  

Ainda grita, estremece, perde-se no mundo,
Inebriado, deslumbram-lhe suas façanhas...
Ele passa, morre-lhe o grito num segundo,
Mas fica a vida...senhora das barganhas.   

 

* * * * * * * * *