Flash Back

Arlete de Andrade

 

Guardei a noite no bolso e caminhei sem medo
pelas vielas da minha vida.

Visitei lugares esquecidos
e ouvi minha mãe gritar: “pra dentro, já é tarde...”.
Pulei a janela de madeira verde.
Desci o morro com meus cabelos longos

lambendo a cintura,

e vi os homens famintos me engolirem no olhar.
Ainda escuto a bola rolando morro abaixo

para banhar-se nas valas fétidas do fim da rua.
Suas palmas no portão,

e eu correndo atrás do meu tamanco mais alto.
O beijo roubado sem culpa;
O cheiro dos primeiros vícios;
Os bailes de domingo e os paredões

apinhados de amassos.
Quando já caminhava de volta,

vi o dia amanhecendo
e avistei, de longe, a Rua 15 se afastando.