A SERPENTE QUE DANÇA

Charles Baudelaire
Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.

Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,

Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento

Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.

Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.

Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.

E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.

Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes

Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!

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Serpente

Angélica T. Almstadter

Enrrolada no cetro de marfim

Presa no visgo de beijos

Entre teus incensos de beijoim

Caminho em desejos

Afinada algoz de teus amores

Desmaio  em anunciação

Na mansidão  de teus  favores

Cativa em oração

 

Pitoniza fecunda da alegria

Bebo a seiva nobre

Destilada em seitas de fantasia

Que minh´alma cobre

 

Danço passos duros e rutilantes

Pretensa liberdade

No refúgio dos cegos amantes

Primícia de felicidade

 

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